Assim nasceu o Grupo 6

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João Lobo Miranda Trigueiros – Fundador do Grupo e Chefe por diversas vezes

Assim nasceu o Grupo 6

Naquela manhã de 17 de Janeiro de 1925, de primavera precoce, radiante, um grupo de senhores, representando as forças vivas da localidade, embainhados nos seus fraques de cerimónia, cabeças cobertas com chapéus de coco dos momentos solenes, ansiosos, postados na gare do caminho de ferro de Olhão, aguardavam o comboio-correio.
Fora, no largo, deputações dos clubes desportivos, com os seus estandartes ao alto, e muito povo, multidão vibrando sob os acordes de estridente marcha guerreira, executada pela filarmónica, luzida em seus uniformes de gala, mantinha o ambiente de grande expectativa.
É que, da troca de correspondência entre dois campeadores das batalhas em prol da educação da juventude, resultara todo aquele aparato: a solene Comissão de Recepção; a formatura da Corporação de Bombeiros; as deputações da mocidade desportiva; a Filarmónica marcial e luzida e a compacta concentração da grei popular, expectante.
Ali estava também, agregado à Comissão, Humberto Martins, homem que até então um atelier litográfico guardava, no incógnito, avaramente, como para não deixar transparecer o seu talento de artista. Mais tarde ele seria o primeiro chefe dos escoteiros de Olhão e o introdutor do basquetebol no Algarve.

Chegou o comboio! Estelejaram foguetes. Os senhores da Comissão receptora tomaram posições. O indigitado orador oficial, esticou os punhos engomados e, dedo em riste, preparou-se para a alocução de boas vindas: “Meus senhores! Faltaria a um dos mais sagrados deveres…” Rompeu a Filarmónica num hino delirante!… Parou o comboio e dele brotou a simpática missão dos Escoteiros de Portugal, rapaziada risonha e simples, gárrula, natural e galharda, chefiada pelo veterano, comissário da zona de Lisboa, Joaquim Amâncio Salgueiro Junior, algarvio bem conhecido dos Olhanenses.

A vista da rapaziada, o gelo dos momentos solenes derreteu-se, de súbito. Afinal, aqueles sorridentes moços não podiam ser tratados, protocolarmente, como estranhos de cerimónias. Eram gente especial. Igual a si própria. Eram escoteiros. Considerámo-los nossos amigos, nossos irmãos. Assim pensou o frustado orador oficial que, temendo o ridículo, encolheu a tempo o dedo indicador e a tempo engulio o discurso!… E, no momento em tomava, com os excelentes rapazes, o primeiro contacto, apesar dos seus 37 anos bem puxados, sentiu-se Lobito e jurou aos seus botões que também havia de ser Escoteiro. E cumpriu a promessa.

Hoje, recordamos com saudade esse primeiro contacto com os Escoteiros do Grupo n.º 1. Quem eram eles? Relembremos os seus nomes: Fernando Castelo-Branco, Albano da Silva (que mais tarde seria o padrinho perpétuo dos escoteiros algarvios), Leão d’Almeida, António Prates, Batista da Silva, Avelino Gonçalves, Silva Paulo, Aníbal Vieira, Álvaro Vieira e Edmundo de Matos.
Chegados ao largo, os componentes da patrulha “Leão” do Grupo n.º 1, irradiante de simpatia, impôs-se a toda a gente, pelo seu porte, pela sua correcção. A intenção de solenidade fora vencida pelo espírito de fraternidade. O ridículo protocolo morrera à nascença.
Apetecia conduzir aqueles rapazes de braço dado, cantando e rindo com eles descuidadamente através das ruas da vila; mas, o programa estava traçado. Teríamos de cumpri-lo. Lá fomos, em cortejo, até à Câmara Municipal onde a Vereação, tendo à frente o seu presidente, acompanhado de uma comissão de senhoras, lhes deu as boas vindas, em nome do Povo de Olhão da Restauração.

Durante o dia, os nosso hóspedes visitaram a pitoresca Vila Branca Cubista e confraternizaram com alguns jovens da terra, estes encantados com tão franca e agradável convivência. À noite, no teatro Apolo, teve lugar o espectáculo de propaganda. Abriu com o hino da Associação, entoado pelos Escoteiros, aplaudidos com entusiasmo. O comissário Amâncio Junior fez uma palestra alusiva. Seguiu-se a passagem do filme “Sempre Pronto”. Agradou, como espectáculo e esclareceu completamente o público sobre a vida altruísta do Escoteiro; sobre a essência do método educativo. Por fim, realizou-se a demonstração dos exercícios regulamentares, tais como sinalização, prontos socorros, etc., que muito interessaram.
No dia seguinte, aos nossos hóspedes foi oferecido um passeio marítimo e visitaram a Ilha de Santa Maria (Farol), onde os esperava uma saborosa caldeirada, confeccionada por pescadores. Apreciaram a paisagem e … lamberam os beiços!…

Foi com pesar que o povo de Olhão viu partir, no dia 19, os garbosos Escoteiros do Grupo n.º 1. A sua linha de conduta e as suas demonstrações escoteiras conseguiram vincar na juventude olhanense o espírito escoteiro. Tanto assim que, correspondendo ao apelo da comissão especial, constituída por Luís António de Azevedo Velez, tenente Francisco José Dentinho (hoje tenente-coronel), Humberto Martins e o autor deste apontamento, um numeroso grupo de rapazes inscreveu-se na lista de aspirantes que viriam a formar um bloco-base, fundamental, do que é hoje o Grupo n.º 6 de Escoteiros de Portugal, com sede em Olhão.

Os que assistiram às demonstrações técnicas dos Escoteiros do Grupo n.º 1, que usufruíram a sua alegre e correcta convivência, jamais os esqueceram. Guardamos nos nosso corações o sentimento de gratidão, pelo serviço inicial que prestaram a muitas centenas de jovens que se tem formado nas fileiras do nosso Grupo local.

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